Um homem foi morto hoje em Juiz de Fora. Para quem acompanha rotineiramente o noticiário policial, principalmente para quem o redige, essa informação seria mais um infeliz fato do nosso cotidiano violento. Para mim, no entanto, a constatação teve outro sentido. Isso porque ao apurar as informações relacionadas ao crime, descobri que aquele corpo várias vezes alvejado era o de um homem que vi ontem. Não, ele não era meu amigo, tampouco “conhecido de cumprimento”. Era mais uma pessoa na rua que o acaso tratou de colocar em meu caminho.
Ontem, ao voltar para casa do trabalho, passei pela barraca de acessórios com a qual ele tirava seu sustento. A tela onde ficavam pendurados brincos, pulseiras e óculos, caiu bem na minha frente e, num reflexo natural, levantei-a novamente. Ele já se aproximava para reerguer a estrutura quando agi. Como resposta, recebi um “Ô! Valeu, rapaz!”. E foi isso. Esse foi o nosso encontro de cinco segundos no fim da tarde de uma segunda-feira.
Não o conhecia. Não sei se era o que se pode dizer um “bom homem” ou um “malandro” das ruas. O que sei é que o homem que sorriu para mim ontem, já não está lá mais hoje, e não estará amanhã.
Não estou comovido ou emocionado, mas o simples fato de escrever sobre isso mostra que, de alguma forma, eu me importei. Provavelmente, se aquele homem hoje ali estivesse eu passaria sem sequer me lembrar do seu rosto ou do gesto que fiz ontem. Acho que foi justamente a tragédia que permitiu à minha memória acessar essa parte que geralmente fica esquecida e despertar em mim a compreensão da trivialidade da vida. Hoje se está aqui, amanhã talvez já não mais.
Acho que o jeito é torcer para que encontros corriqueiros como aquele não nos permitam ter esse tipo de sensação em virtude de uma fatalidade. Enfim, bola pra frente…

