
Aponta o lápis, bate a máquina, amassa o papel. Corre, esquece, volta e gira. Os neurônios são como conta-giros de um motor incessante na cabeça de quem redige. O deadline, a manchete, a cobrança e o suspiro aliviado, seguido de mais uma dose de persistência, que avança madrugada adentro e chega ao dia seguinte sem que se perceba. Na falha, há vontade, pelo êxito, há obsessão. Assim pode ser descrita a rotina de um jornalista na selva de uma redação.
Ao assistir “Todos os homens do presidente” (1976), de Alan J. Pakula, a sensação que o espectador tem é de que a vida dos dois repórteres do jornal The Washington Post, Bob Woodward (Robert Redford) e Carl Bernstein (Dustin Hoffman), depende do sucesso de suas publicações. Dois aguerridos jornalistas que, mesmo contra todas as indicações, acreditaram em suas intuições e desvendaram o maior escândalo político da história dos Estados Unidos.
Escolhido para apurar um, aparentemente sem maiores consequências, assalto à sede do Partido Democrata, Woodward, logo nas primeiras horas de trabalho, desconfiou de que algo estava errado no caso: os assaltantes já possuíam advogado, que compareceu ao tribunal, mesmo sem ter sido acionado enquanto os suspeitos estavam na delegacia. Cabe aqui citar o imprescindível “faro” que um jornalista deve possuir para captar as informações soltas no ar. Ao final da primeira página de texto, veio a sensação de que havia muito mais por trás daquele incidente. O quebra-cabeça começava a se montar.
A investigação desenvolvida pela parceria de um repórter iniciante e um veterano desorganizado e arredio, à beira da demissão, entrou para a história com o nome do edifício onde tudo começou: Watergate.
Adaptação do livro, de autoria dos referidos jornalistas, “All The President’s Men”, o longa-metragem retrata com detalhes, até pela proximidade das datas dos acontecimentos, o caso que culminou com a renúncia do presidente republicano Richard Nixon, em 1974. O título é uma referência aos homens próximos ao presidente que, um a um, foram desmascarados e tiveram seus crimes levados a público.
Outra citação valiosa feita no filme é a da famosa fonte secreta denominada “Garganta Profunda”¹. O codinome foi dado pelo editor de Bob e Carl, numa menção a um polêmico filme erótico lançado em 1972. É possível dizer que o contato, somado a outras tantas tentativas de obter informações de funcionários do FBI e da Casa Branca, foi a chave para desvendar todos os crimes cometidos pelo partido republicano, nos quais setores da CIA, FBI, Justiça Federal, Executivo e o próprio presidente Nixon estavam envolvidos.
Além da narrativa do importante fato, o filme ainda traz elementos que enchem os olhos do espectador: o dia-a-dia de uma redação, a estressante e bem-humorada reunião de pauta entre os editores e a persuasiva técnica de extração de informações utilizada pelos jornalistas que, à época, não tinham acesso aos recursos tecnológicos hoje disponíveis.
Por ser considerado um retrato fiel do acontecimento que chocou o mundo, na época em que as notícias não corriam na mesma velocidade de hoje, nem chegavam ricas em informações aos jornalistas, “Todos os homens do presidente” merece um destaque especial por sua seriedade e competência na retratação da história de dois homens que desafiaram todos os obstáculos e que, no fim, provaram que nem tudo é o que parece ou o que nos fazem acreditar que seja. Belíssima obra.
¹ Em 2005, o ex-agente do FBI W. Mark Felt, segundo no comando da agência à época, revelou ser o misterioso Garganta Profunda. O fato foi confirmado por Woodward e Bernstein.